Lugar à ética

A ética nos negócios e a responsabilidade social das empresas – uma “interligação” nem sempre harmónica… – constituem, nestes dias, um tema decisivo.

Nesta edição, autores de diferentes “escolas” analisam, em perspectivas teórica e prática: o papel da ética e a sua relação com a economia; a responsabilidade das empresas e a cidadania empresarial; a coerência e a economia do bem comum; o altruísmo e o dever.

Académicos, dirigentes associativos, gestores e outros especialistas reflectem sobre um assunto crucial, explicam a evolução de conceitos, põem em causa sistemas até há pouco intocáveis.

Como adiante escreve uma autora, poderá estar prestes a acabar a era do capitalismo e novos modelos poderão surgir, devido a evidentes pressões sociais, culturais, económicas e ambientais, que exigem, dia após dia, um mundo mais sustentável. E interroga: “Será o recente mediatismo em volta da responsabilidade social das empresas um prenúncio dessa mudança?”.

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Regar a esperança

Há 25 anos, quando germinavam os Cadernos de Economia, assistia-se a uma alucinação bolsista (a Bolsa de Lisboa subiu 280% entre Janeiro e Outubro de 1987) que culminou no “crash” de 20 de Outubro. A euforia do mercado de capitais espelhava a embriaguez que se vivia e que atingia zonas impensáveis…

Trazemos aqui a memória daquele tempo porque ela ajuda a compreender algumas das causas da situação penosa em que o País se encontra.

Nessa época, em vez de aproveitar os fundos de Bruxelas para realizar as decantadas “reformas estruturais” (e como, nessa altura, já se falava das “reformas estruturais”!), Portugal optou por um polémico modelo de desenvolvimento a que não foi alheia uma excessiva “política do betão”, ao mesmo tempo que cedia educadamente às imposições de Bruxelas visando ajustar/destruir sectores produtivos (agricultura, pecuária, pescas…). Os financiamentos do fundo Social Europeu permitiam investimentos bizarros, conheciam-se “cursos de formação” desfasados das necessidades do tecido empresarial português. Projectam-se obras megalómanas, os “jeeps” da moda invadem campos e cidades. Incentiva-se o consumo, muitos temem que os dinheiros do FSE tenham o efeito das especiarias da Índia. Surgem os alertas, aqui mesmo nos Cadernos de Economia, mas era difícil contrariar o deslumbramento…

As décadas seguintes não apenas não solucionaram os problemas estruturais do País, como acrescentaram outros – quer pelo prosseguimento de algumas “grandes obras” (quem não se lembra dos sumptuosos estádios de futebol), quer através do descontrolo orçamental/endividamento.

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O Economista 2012

Quando, em Fevereiro de 2007, foi revelada ao mundo a crise norte-americana do “subprime”, o mundo estava longe de imaginar que a turbulência financeira nascente iria transformar-se, de forma galopante, numa grave crise económica e social, abrangendo a generalidade dos países do globo.

A rapidez do contágio logo destapou o manto que cobria um edifício que há muito ameaçava ruir – por força da insustentável “dívida soberana” de vários países europeus.

Cinco anos depois, a crise (financeira, económica e social), com epicentro na Europa, aí está – e para durar.

Não há consenso para a sua ultrapassagem. Mas numa coisa os especialistas mundiais estão de acordo: não há estratégias isoladas que consigam superar os problemas de um país – seja de um país da “periferia”, como Portugal, com as suas dificuldades acrescidas, seja da Europa, que só unida conseguirá recuperar algum do seu antigo poderio e enfrentar os blocos americano e, sobretudo, asiático. É que há uma nova ordem global a despontar, como é lembrado neste número…

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Um drama social

Quando mais de um quinto da população activa do País está desempregada, metade da qual sem acesso ao respectivo subsídio (e a metade que o recebe poderá vir a enfrentar cortes elevados), nada mais é preciso dizer para se ter a noção do flagelo social em que Portugal está mergulhado. E nem é necessário referir os 40% de jovens até aos 25 anos que não encontram um posto de trabalho.

Centrados, pois, na situação social do País, olhemos o “poder” da economia, da “economia que existe para as pessoas”. Assim, mais do que nunca faz sentido analisar as “políticas de emprego”, faz sentido considerar a equação “emprego (sem) crescimento”.

Enfim, é pacífico que a ciência económica (a par da acção dos políticos) poderá (terá de) dar respostas ao drama social que o desemprego constitui.

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Espaço para algum optimismo

Estes dias de “desesperança”, potenciadores de um generalizado desalento, fazem esquecer os aspectos positivos da economia portuguesa.

Sem pretender minimizar os graves problemas económicos, financeiros e sociais que o País enfrenta, entendemos dedicar a edição n.º 99 dos Cadernos de Economia a casos de sucesso – enquadrados por análises gerais de alguns académicos.

Assim, reputados especialistas analisam sectores da actividade que continuam a crescer saudavelmente neste tempo de crise, ao mesmo tempo que se explicam projectos empresariais bem sucedidos.

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Envelhecimento activo

Nos nossos dias, é inaceitável a ideia de um “envelhecimento para as estatísticas”. Em sua substituição, desenvolve-se o princípio de um “envelhecimento activo”, que inclui a possibilidade de laboração para além da idade convencional – mas, sempre, com boa qualidade de vida.

Todavia, esta mudança de filosofia causa novos e complexos problemas.

A solução/minimização de tais problemas convoca, desde logo, as empresas para a assunção de uma maior responsabilidade social. Mas toda a sociedade tem de ser envolvida, nomeadamente através da chamada “solidariedade entre gerações”. E, claro, o Estado, obrigado a enveredar por novas políticas públicas para responder à transformação demográfica que se acentua.

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Enfrentar a deriva

Nestes dias plúmbeos, quando um certo desânimo paralisante ameaça alastrar, é preciso, e possível, reagir – em relação às coisas negativas do País e, também, à deriva da Europa, sobretudo do tal “duovirato” (para utilizar a expressão recente de Helmut Kohl…).

Vive–se uma fase em que é legítimo questionar antigas e “definitivas” certezas, em que a base da ciência económica é posta em causa por personagens credíveis e outras nem tanto… É um tempo de “desorientação”, que parece atingir áreas até há pouco impensáveis.

Duas dezenas de autores – nomeadamente académicos, gestores, dirigentes empresariais e sindicais – fornecem neste número dos Cadernos de Economia importantes contributos para o entendimento da situação que Portugal, a Europa e o Brasil vivem. Queremos ainda destacar as análises referentes a vários sectores da actividade: agricultura, minério, eléctrico, automóvel, turismo, seguros, (…).

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